Atlas compara uso de agrotóxicos no Brasil e União Europeia

Foi lançado em maio de 2019 a versão internacional do Atlas Geografia do uso de agrotóxicos no Brasil e conexões com a União Europeia. A obra lançada no Brasil em 2017 é resultado de dois pós-doutorados da professora e geógrafa Larissa Miles Bombardi, pesquisadora da USP – Universidade de São Paulo. O Atlas compara uso de agrotóxicos no Brasil e União Europeia e chega conclusões estarrecedoras.

grafico glifosato brasil
Brasil chega a tolerar 400 vezes mais algumas substância com relação à Europa.

O lançamento aconteceu em Berlin, na sede do ENSSER (European Network of Scientists for Social and Environmental Responsability), rede europeia sem fins lucrativos que reúne cientistas ativistas responsáveis ambiental e socialmente.

Larissa Bombardi agrotoxico
Professora Larissa Bombardi (Foto: Cecilia Bastos/USP)

Falando ao Jornal da USP a pesquisadora revelou que o Brasil é campeão mundial no uso de pesticidas na agricultura, alternando a posição dependendo da ocasião apenas com os Estados Unidos. O feijão, a base da alimentação brasileira, tem um nível permitido de resíduo de malationa (inseticida) que é 400 vezes maior do que aquele permitido pela União Europeia; na água potável brasileira permite-se 5 mil vezes mais resíduo de glifosato (herbicida); na soja, 200 vezes mais resíduos de glifosato, de acordo com o estudo, que é rico em imagens, gráficos e infográficos. “E como se não bastasse o Brasil liderar este perverso ranking, tramita no Congresso nacional leis que flexibilizam as atuais regras para registro, produção, comercialização e utilização de agrotóxicos”, relata Larissa.

Desde o início do governo Bolsonaro, já foram liberados 239 agrotóxicos para uso no Brasil, sendo a maioria deles de uso restrito em outros países.

A íntegra do Atlas está disponível para download gratuitamente.

União Europeia

Na reportagem do veículo da universidade a pesquisadora explica que o lançamento do atlas na Europa se deu pelo fato de a Alemanha sediar a Bayer/Monsanto e a Basf, indústrias agroquímicas que respondem por cerca de 34% do mercado mundial de agrotóxicos. A Monsanto, recentemente incorporada ao grupo Bayer, é a líder mundial de vendas do glifosato, cujos subprodutos têm sido associados a inúmeras doenças, incluindo o câncer e o Alzheimer. “Queríamos promover a discussão sobre a contradição de sediarem indústrias que controlam toda a cadeia alimentar agrícola – das sementes, agrotóxicos e fertilizantes – e serem rigorosos quanto ao uso de mais de um terço dos pesticidas que são permitidos no Brasil. Eles são corresponsáveis pelos problemas gerados à população porque vendem e exportam substâncias sabidamente perigosas, porém, proibidas em seu território”, diz.

Entrevista em vídeo

Na quinta-feira, 18 de junho de 2019, o jornalista Bob Fernandes entrevistou a pesquisadora em seu canal no Youtube. Nos 33 minutos de conversa, Larissa Bombardi comenta não só os dados alarmantes descritos no Atlas como as contestações que o trabalho vem recebendo por parte dos representantes do agronegócio brasileiro. Segundo ela os agricultores locais temem boicotes europeus aos produtos produzidos aqui com imensa quantidade de veneno.

Uma grande rede de mercados da Suécia já declarou boicote aos produtos agrícolas brasileiros.

Destacado entusiasta do uso de agrotóxicos, o ex-secretário do Meio Ambiente do estado de São Paulo, Francisco Graziano, disse na sua coluna no site Poder 360, que no Atlas que compara uso de agrotóxicos no Brasil e União Europeia “a geógrafa da USP imputa aos agrotóxicos a encarnação do mal sobre a Terra. Qual numa fábula, ela romanceia a tradicional produção camponesa, vista como a bem-aventurança no campo. Bucolismo puro.”

No vídeo a pesquisadora rebate com dados científicos da pesquisa os argumentos dos defensores do veneno.

Autora do Atlas, Larissa Bombardi é entrevistada pelo jornalista Bob Fernandes.

Saúde e agrotóxicos

Entre 2007 e 2014, o Ministério da Saúde teve cerca de 25 mil ocorrências de intoxicações por agrotóxicos. O atlas mapeia as regiões mais afetadas: dos Estados brasileiros, durante o período da pesquisa, o Paraná ficou em primeiro lugar, com mais de 3.700 casos de intoxicação. São Paulo e Minas Gerais ficaram na segunda colocação, com 2 mil. Das 3.723 intoxicações registradas no Paraná, 1.631 casos eram de tentativas de suicídio, ou seja, 40% do total. Em São Paulo e Minas Gerais o porcentual foi o mesmo. No Ceará, houve 1.086 casos notificados, dos quais 861 correspondiam a tentativas de suicídio, cerca de 79,2%. Os mapas de faixa etária mostram que 20% da população afetada era composta de crianças e jovens com idade até 19 anos. Segundo Larissa, no Brasil, há relação direta entre o uso de agrotóxicos e o agronegócio. Em 2015, soja, milho e cana-de-açúcar consumiram 72% dos pesticidas comercializados no país.

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