A fome é sempre do outro

Enquanto você lê este artigo, 820 milhões de pessoas passam fome no mundo. Isto significa 10,8% da população do planeta. Uma pessoa morre de fome a cada quatro segundos. E não é por falta de comida, é por falta de acesso; por falta de dinheiro para comprar comida. Há décadas o mundo produz mais do que o suficiente para alimentar toda a população do planeta. A FAO-ONU mostrou em um estudo realizado em 2016 que a produção de calorias já atingia 123% da necessidade per capita à época e informou também que desperdiçamos um terço (1,3 bilhão de toneladas) de tudo aquilo que produzimos. Se utilizássemos apenas 25% daquilo que jogamos fora, isto seria mais do que suficiente para vencer a fome no planeta. Por que não fazemos? Talvez porque a fome seja, sempre, do outro. Porque em pleno século XXI, aquilo que deveria ser um imperativo ético e moral ─ o Direito Humano à alimentação ─ tem sido tratado como uma decorrência natural do desenvolvimento capitalista. Porque a fome de uns gera lucro para outros tantos.

 O tema do desperdício de comida, aliás, é um bom exemplo sobre a relação entre pobres e ricos. Segundo dados de FAO, os europeus e americanos desperdiçam de 95 a 115 quilos de comida/per capita/ano, enquanto na África Subsaariana e no Sul e Sudeste Asiático, esta média é de apenas seis a 11 quilos. Conclusão: a fome é sempre do outro e, muitas vezes, dá um bom lucro.

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Segundo dados de FAO, os europeus e americanos desperdiçam de 95 a 115 quilos de comida/per capita/ano. (Foto: Soninha Vill)

A fome no Brasil

 No Brasil, em 2017, 15 pessoas morreram por dia de desnutrição. Hoje temos mais de 5 milhões de brasileiros/as desnutridos/as. Depois de ter saído do Mapa da Fome da ONU em 2014 e ter servido de modelo ao resto do mundo pelas políticas públicas de combate à fome e à desnutrição, o Brasil retornou à condição anterior. A fome e a desnutrição voltaram com toda a força, embaladas pela irresponsabilidade de Temer, Bolsonaro e suas milícias de golpistas e fascistas. Para termos uma ideia do que significaram as políticas brasileiras de combate à fome, especialmente nos Governos Lula, se em 2000 o índice de Insegurança Alimentar no país era de 10,6%, em 2010 este índice caiu para 2,5%. Milagre? Não. Simplesmente políticas públicas eficazes voltadas aos mais vulneráveis: bolsa família, benefício de prestação continuada, valorização da Agricultura Familiar e Camponesa, Programa de Aquisição de Alimentos, Programa Nacional de Alimentação Escolar, valorização do salário mínimo e programas de geração de emprego e renda.

Fim do CONSEA

         Por aqui, uma das primeiras medidas do Governo Bolsonaro foi extinguir o CONSEA – Conselho Nacional de Segurança Alimentar, organismo composto por membros do governo e da sociedade civil que tinha como finalidade sugerir, construir e acompanhar as políticas públicas voltadas para o enfrentamento da fome e da desnutrição no nosso país. E como desgraça pouca é bobagem, abriram-se as portas para a comercialização indiscriminada de agrotóxicos. Agora ou em um futuro muito próximo iremos conviver com um número cada vez maior de brasileiros e brasileiras em condição de insegurança alimentar e com uma oferta de alimentos cada vez mais envenenados. Ou, ainda, quem sabe: veneno para quem tem fome.

         E assim seguimos, jogando comida fora ou envenenando a comida e a terra que pode produzi-la. Fazendo de conta que não é bem assim. Afinal de contas, a fome sempre é do outro.

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