Carinho

Existem infinitas maneiras de demonstrar carinho. Isso varia conforme o momento, o interlocutor, a ocasião e por aí vai.

Quando Florianópolis ainda era para nós apenas um projeto, lá em 2002, Carin e eu descíamos a Serra do Mar com uma frequência intensa, mais ou menos a cada dois finais de semana, a fim de entender a cidade e descobrir formas de tocar a vida por aqui. Não, nenhum de nós surfa. A pegada foi outra. Rolou um carinho, daqueles que não se explicam, por isso fogem ao controle e tornam as coisas eternamente interessantes.

Fuçamos a Grande Florianópolis quase toda. Conhecemos as planejadas Pedra Branca e Palmas do Arvoredo quando praticamente não tinha casa lá, mas a grana não dava. Visitamos o Centro da Palhoça. Achamos um sítio lindo em Biguaçu, só que a documentação… Nos apaixonamos pelo Centrinho Histórico de São José, mas também não deu. Enfim, focamos na ilha. Vasculhamos os bairros de sul a norte. Segurávamos os gastos em Curitiba e conseguíamos bancar a gasolina, uma pousada e as refeições.

Numa dessas expedições, na fase fria de 2004, nos hospedamos pela segunda vez no balneário de Canasvieiras, um pedacinho de Argentina perdido em Florianópolis. Lembro que foi a primeira vez que vivenciamos o clima do Ironman na cidade – da empolgação turística ao horror do trânsito. Foi também quando conhecemos comida japonesa. Essa viagem foi legal. De tantas que fizemos, é uma de memórias marcantes. Uma delas é a de ter conhecido o Quinha.

Minha esposa se encarnou na ideia de comer tainha, mas que fosse num restaurante característico mané. Então, perguntamos ao querido da pousada onde encontraríamos a melhor do bairro nessas condições e ele cravou: vão no Quinha. E ele não mentiu.

Paramos o carro na frente do restaurante de chão batido, cadeira de palha, toalha xadrez, garfo tortinho, copo americano e louças Duralex e lemos no luminoso “Quinha, O Bar”. Quem primeiro nos atendeu foi Lino, O Garçom.

Frio, Canasvieiras, 2004, só nós estávamos no restaurante. Isso facilitou que conhecêssemos Seu Vilmar, O Manezinho. Apesar de estar passando jogo do Avaí na TV, Seu Vilmar nos deu atenção. É porque, justo naquela noite, o restaurante dele não tinha tainha! Seu Vilmar foi até nossa mesa e nos ofereceu o peixe mais fresco da casa. Quisemos, ainda bem!

Um ano depois, no frio de 2005, achamos nosso canto em Florianópolis. Em Canasvieiras. Na rua do Quinha. A uns 50 metros do restaurante. Desde então, esse reduto mané tem sido um dos nossos mais amados pontos de escape pra jantar fora de casa em meio de semana. E o Seu Vilmar, O Avaiano, sempre dividiu conosco a atenção que dava ao jogo que passava na TV.

Farofa de banana
Farofa de banana cai bem com uma Weizenbier.

A gente conversava muito sobre as coisas do bairro, causos antigos que ele viu de perto, personagens que ele conheceu. Seu Vilmar, sempre muito carinhoso conosco, gostava de nos contar histórias. Um dos principais carinhos que ele nos fez foi numa noite qualquer em que aparecemos por lá, pedimos ao Lino uma anchova frita tradicional do cardápio e o Seu Vilmar apareceu na porta da cozinha, ainda molhado do mar, e de lá nos disse: “Ô casal, acabei de voltar do mar. Peguei uns paratizinhos coisa mais linda, não tem!? Vocês não querem que eu frite pra vocês?” Aceitamos, comemos o mais memorável peixe frito da vida e ainda ouvimos o Seu Vilmar falar de como foi a pesca e tal. Tudo uma delícia.

O que eu não contei ainda, meus amigos e minhas amigas, é que o Quinha tem um pastel… Mas olha, que pastel! Tudo tradicional, de palmito, queijo, camarão e camarão com queijo. Aí, intimidade estabelecida, uma noite perguntei ao Seu Vilmar por que o restaurante dele, tão típico da ilha e consagrado pelo pastel, não tinha justamente pastel de banana. A resposta: “Ô querido, eu tenho uns problemas de saúde aí no coração e não posso comer muita fritura, mas se tiver pastel de banana aqui eu vou ficar comendo o dia inteiro, então não pode ter pastel de banana.” Argumento vencedor!

Banana é aquele coringa. Crua, frita, assada, pura, processada, misturada, doce, salgada, apimentada, não tem erro. A culinária tradicional brasileira é rica no emprego da banana, sorte nossa! Aqui no Cozinha a Dois, temos uma deliciosa receita de farofa de banana (mate saudades aqui ).

Tá, mas e o que pastel, farofa, banana, carinho e tradição têm a ver com cerveja? Tudo, oras! Um dos estilos mais tradicionais, da escola cervejeira mais clássica, combina perfeitamente com tudo isso: Weizenbier, mais conhecida aqui no Brasil como Weiss, a cerveja de trigo dos alemães. Trata-se de uma bebida elegante e delicada, cuja fermentação se dá em temperatura elevada e busca, como resultados mais expressivos, um caráter fenólico de cravo e a formação de ésteres de banana! Sim, uma boa cerveja de trigo alemã tem evidente aroma de banana, com um toque de cravo. Daí a harmonizar Weiss com banana, pastel de banana, farofa de banana, cuca de banana, banana caramelada, banana frita, chips de banana, etc. de banana é só pôr no copo e beber!

A Weizenbier também tem muita história pra contar. Digamos que ela foi objeto de pequenos delitos na Baviera de cinco séculos atrás. Mas isso aí é conversa pra outro dia, que já me estendi demais por hoje.

Até breve!

Esta coluna saúda, com muito carinho, a memória do Seu Vilmar.


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